Damares Alves, senadora, destaca a importância da parceria entre igreja e Estado no enfrentamento à violência. Foto Waldemir Barreto/ Agência Senado
Em entrevista, a senadora pelo Distrito Federal aborda os desafios enfrentados por mulheres evangélicas vítimas de agressão, defende parcerias entre Igreja e Estado e relata iniciativas de seu mandato para romper o silêncio nas comunidades de fé.
Conhecida por sua trajetória na defesa dos direitos de mulheres e crianças, Damares Alves, senadora pelo Distrito Federal, tem concentrado esforços de seu mandato no combate à violência doméstica, inclusive em ambientes muitas vezes negligenciados, como o religioso. Com histórico ligado ao meio evangélico, ela sustenta que a fé pode ser uma importante aliada no amparo a mulheres em situação de risco. Na conversa exclusiva com a Comunhão, a legisladora analisa obstáculos, sugere soluções e defende uma postura mais ativa das lideranças espirituais, em sintonia com o poder público.
A senhora tem atuado na proteção das mulheres em várias frentes. A partir da sua experiência no mandato, há algum diagnóstico sobre a violência doméstica dentro de comunidades religiosas, sobretudo evangélicas?
Essa é uma inquietação antiga. Cresci na igreja, imersa nesses princípios, e percebi que, em muitos casos, a reação da igreja diante da agressão contra a mulher não era a mais adequada. Vi inúmeras situações em que o pastor apenas orava pela irmã agredida, sem ir além. É necessário rever essa postura. O líder religioso carrega uma enorme responsabilidade: cuidar de quem está fragilizado. Por isso, tenho provocado a igreja a agir, estimulando que todos se mobilizem para tornar o lar um lugar seguro. No meu mandato, criei a campanha Se Liga, Irmã. Levei essa iniciativa a igrejas do Distrito Federal para conscientizar lideranças e fiéis sobre a importância da ação prática. A proposta foi bem-sucedida e atualmente é gerida pelo Instituto Flores de Aço.
Muitas mulheres evangélicas temem denunciar por causa de laços familiares e de fé. Como a senhora vê esse quadro e que alternativas existem para quebrar esse silêncio?
Diante disso, a senhora considera que as evangélicas estão entre as que mais recorrem ao Ligue 180 para registrar casos de violência doméstica? Fiquei profundamente impactada ao descobrir isso, ainda quando atuava como ministra da Mulher. Foi um alerta de que algo precisava ser transformado. A mudança virá com mais informação e orientação sobre os caminhos para pedir socorro. Por questões enraizadas na cultura, muitas mulheres do nosso meio ainda se calam — às vezes até que seja tarde. Isso é inaceitável.
A senhora acredita que as igrejas evangélicas têm progredido no enfrentamento à violência doméstica? Qual pode ser o papel delas nesse processo?
Sim, várias já instituíram círculos de diálogo e passaram a atuar na proteção. Mas o Brasil é vasto, e os desafios permanecem. Em muitas localidades, não há delegacia nem abrigo. A igreja, então, torna-se um ponto de procura para essas mulheres. Ela pode, sim, atuar como extensão do Estado. Como está presente onde o poder público frequentemente não alcança, a responsabilidade da igreja transcende o âmbito espiritual.
Na sua opinião, como equilibrar fé, valorização da família e uma postura firme contra a violência à mulher?
Há total sintonia. Jesus veio para restaurar a dignidade da mulher. Somos filhas do Rei. Uma filha do Rei não foi feita para ser maltratada ou aviltada. O corpo da mulher é morada do Espírito Santo. Quem agride uma mulher fere algo sagrado para Deus. O lugar da mulher cristã não é no sofrimento calado, mas na celebração da vitória. A igreja não pode compactuar com a violência. Proteger a mulher é proteger a família. A agressão arruína lares, fere os filhos e alimenta ciclos que precisam ser rompidos.
A senhora defende a criação de políticas públicas ou ações específicas voltadas a mulheres em contextos religiosos?
Acredito que a própria igreja pode assumir essa função, inclusive como colaboradora do Estado. Pode oferecer espaços, acolhida, suporte espiritual. Não defendo medidas impositivas à igreja, mas um movimento que parta dela, de maneira voluntária.
Como engajar pastores e lideranças religiosas de forma mais efetiva na orientação e no amparo a mulheres em situação de violência?
O primeiro passo é levar informação. Informar sobre direitos, sobre a rede de atendimento, sobre condutas que podem salvar vidas ou piorar quadros. É preciso entender que estamos lidando com vidas. Isso também precisa integrar a missão de cuidado espiritual das igrejas.
Há espaço para parcerias institucionais entre poder público e igrejas visando ampliar a conscientização sobre os direitos das mulheres?
Sim. Igreja e Estado podem caminhar juntos. Tenho grande confiança no papel social da igreja, unindo fé e acolhimento aos mais vulneráveis.
Na sua avaliação, ainda persiste no Brasil a ideia de que a violência doméstica é uma questão privada? Como reverter essa visão?
Infelizmente, sim. E essa mudança só virá com conscientização e engajamento coletivo. O movimento pode começar pelas lideranças, mas precisa envolver toda a sociedade.
Que recado a senhora deixa para mulheres de fé que vivem violência em casa e hesitam em buscar ajuda?
Mulher, você é filha do Rei e seu corpo é templo do Espírito Santo. Deus não a criou para ser humilhada ou agredida, mas para ser amada e respeitada. Sair do ciclo de violência não é abandonar sua família, é honrar a vida que Deus lhe deu. Não tenha medo. Jesus é seu protetor e deseja vê-la livre.
FONTE: Kadoshwr com informações da comunhão


